História da Academia

Academias de Letras, como instituições de cultivo da língua e da literatura, têm início em 1635, quando foi criada a Academia Francesa de Letras, por incentivo do Cardeal Richelieu. O termo Academia, que também persiste ainda para indicar centro especializado de estudos e pesquisas (Universidade) já se originou na Grécia de Platão, no século IV aC.

No Brasil, foi organizada, em 1897, a Academia Brasileira de Letras, em torno de Machado de Assis, que foi seu Presidente até a morte, em 1908. A seguir, iniciativas congêneres foram empreendidas em muitos Estados. Em Santa Catarina, a idéia gestadora de uma Academia de Letras foi lançada em 1912, pelo jovem de vinte anos, ainda não escritor feito, Othon Gama D’Eça. Idéia não vingada, em 1918, estudante de Ciências Jurídicas e Sociais e publicando seu primeiro livro, Cinza e Bruma, de poesia decadentista, o mesmo Othon D’Eça retoma a sugestão, secundado por Altino Flores. Já existia, no Estado, o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, fundado em 1896, por incentivo do político de inteligência e cultura José Artur Boiteux. Alguns participantes daquela agremiação também buscavam desenvolver a literatura.

Expandindo-se as inquietações literário-culturais, em 1920 aparecem os livros Pela Terra Catarinense, do polêmico jornalista Crispim Mira, e a Pequena História Catarinense, de Lucas Alexandre Boiteux. Sinais de novos tempos apontaram com a revista Terra, que pretendia sacudir o marasmo literário reinante. Trazendo à testa Altino Flores, Othon d’Eça, Osvaldo Mello e Laércio Caldeira, a revista trouxe à luz os três primeiros números em março, abril e maio de 1920, sendo uma “Revista de artes e Letras” e de publicação mensal. Entretanto, os ardorosos propósitos artístico-literários logo passaram a plano secundário, quando a revista entrou numa segunda fase e, a partir do quarto número, de 22/7/1920, assumiu periodicidade semanal, até seu último número, o vigésimo quarto, de 23/1/1921, abrindo seu espaço para aspectos político-sociais. Literariamente, a revista foi conservadora, na linha do Realismo de Eça de Queiroz e do Parnasianismo de Olavo Bilac. Embora os idealizadores da revista tencionassem inquietar e sacudir o marasmo, não assumiram nenhum impulso vanguardeiro, nem aceitaram germinar as idéias modernistas. Entretanto, a revista Terra marcou sua época, congregando intelectuais de tendências várias e abrindo caminho para o surgimento da Sociedade Catarinense de Letras.

No número 17 de Terra, de 24 de outubro de 1920, Altino Flores denunciava que “há aqui oito ou dez legítimos homens de letras” (p.4) e, na mesma revista, Othon d’Eça analisava com mais crueza a situação da época, afirmando que era “de doer o coração mais duro” (p.7). Como encontrar 40 literatos para constituir uma Academia? Mais uma vez entra em cena José Arthur Boiteux, no momento exercendo o cargo de Secretário de Interior e Justiça, no governo de Hercílio Luz. Boiteux envia convite a amigos intelectuais, em 29 de outubro de 1920, e com eles, no dia seguinte, se reúne e organizam a SOCIEDADE CATHARINENSE DE LETRAS.

A Sociedade se estruturou, teve seus estatutos já aprovados em maio de 1921. Os quatorze fundadores ocuparam suas cadeiras e foram escolhidos os Patronos de todas as Cadeiras, distribuídos em seqüência por ordem alfabética. Saliente-se, entretanto, que houve incertezas e posteriores alterações efetuadas nessa listagem dos Patronos. A 15 de novembro de 1921, em Sessão Extraordinária de Instalação da Sociedade Catharinense de Letras, dez novos membros, ainda considerados fundadores, foram admitidos pela Sociedade. A partir de janeiro de 1924, a Sociedade passou a denominar-se ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS, estando vagas ainda dezesseis das quarenta Cadeiras. Observe-se que vários escritores, nove ao todo, que faleceram depois de 1920 (Virgílio Várzea em 1941 e Liberato Bittencourt em 1948), se tornaram Patronos das Cadeiras posteriormente ocupadas. Oscar Rosas participou como fundador, mas, falecendo logo em 1925, passou a Patrono da Cadeira 36. Atente-se ainda para o fato de que Sociedade/Academia Catarinense de Letras, diferentemente de outras instituições congêneres, admitiu desde logo mulheres nos seus quadros, de modo que a primeira titular da Cadeira 10 foi Delminda Silveira de Souza, e a Cadeira 38 teve como primeira titular Maura de Senna Pereira. Segundo dados disponíveis, a Cadeira 40 parece ter recebido como primeiro titular Nereu Corrêa, eleito em 1958 e da Cadeira 14 é conhecido somente o titular C.A. Silveira Lenzi, eleito em 1966.

Pela Lei nº 1.664, de 15 de outubro de 1929, o Presidente do Estado de Santa Catarina declarou de utilidade pública a Academia Catarinense de Letras, autorizando o Poder Executivo para adquirir ou construir um prédio para a instalação da “Casa de Santa Catarina”, sede que abrigasse o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, a Academia Catarinense de Letras e outras associações científicas ou literárias, o que não foi cumprido. O Município de Florianópolis a reconheceu como de utilidade pública pela Lei nº 870, de 16 de maio de 1968.

Dos fundadores da Academia Catarinense de Letras, poucos escritores criaram obra que lhes proporcionasse sobrevivência literária. Destaque merecem: OTHON DA GAMA LOBO D’EÇA (1892-1965), ALTINO CORSINO DA SILVA FLORES (1892-1984, TITO CARVALHO (1896-1965), JOÃO BATISTA CRESPO (1887-1966), DELMINDA SILVEIRA (1854-1932 e MAURA DE SENNA PEREIRA (1914-1992). Durante os primeiros anos, a Sociedade/Academia foi liderada por José Boiteux. Após seu falecimento, em 1934, entre períodos de hibernação, destacou-se a liderança de Othon D’Eça até seu falecimento em 1965. Logo após processou-se ampla eleição de membros, a fim de preencher todas as Cadeiras.

Lauro Junkes

 
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